sábado, 17 de fevereiro de 2018

Espinhaço Épico - Grand Finale

Épico, conforme um dicionário virtual, significa: "Acontecimento histórico grandioso e dramático, que implica em alguma mudança histórica"

Tudo começou com uma feliz coincidência, dezessete de agosto de 2015.

Era só mais um melancólico começo de segunda-feira, até receber uma mensagem do grande ornitólogo e amigo Wagner Nogueira perguntando-me onde estava. Na hora já me veio à mente que o Wagner deveria estar aqui, no Rio, mas não poderia imaginar que aquela mensagem me proporcionaria algo único em minha vida!

Para minha sorte estava trabalhando no Galeão (o que nem sempre acontece) e o Wagner havia acabado de desembarcar para um trabalho no interior do Estado. Ele ficaria algumas poucas horas aguardando um colega que chegaria em outro voo.

Pra variar falávamos sobre pássaros, aves, até que de repente o Wagner exclama: João, você não imagina o que tenho aqui!

Caramba... para o Wagner, que é um poço de serenidade, acostumado com tudo quanto é tipo de bicho, fazer aquele mistério... A adrenalina já rolou solta! Devia ser algo do naipe de um ET ou fantasma!

Não tenho palavras para agradecer a confiança deste meu grande amigo, verdadeiro irmão, Wagner Nogueira.

Graças a ele experimentei um daqueles momentos mágicos que faz a vida valer a pena! Tive o imensurável privilégio de conhecer e registrar uma raríssima joia! Mais rara que qualquer outra já encontrada em todo o rico, precioso Espinhaço.

Para vocês terem ideia, até então, somente cerca de dez seres humanos haviam colocado os olhos em um espécime vivo! Não havia sequer fotos! Só a conhecia por ilustrações que, aliás, não faziam jus à sua beleza singular.


Eternos segundos até que enfim o Wagner me mostra a foto! Foi paixão à primeira vista!

Com as passagens compradas para o norte mineiro, um misto de ansiedade, deslumbramento e medo não me deixou dormir (literalmente!) nas duas noites seguintes àquela revelação!

Uma espécie com toda sua história de raridade, praticamente uma lenda, e ainda de uma beleza ímpar?! Não há como não se apaixonar! Assim como não temer pelo seu futuro...

Se os olhos são a janela da alma, os desta ave têm muito a dizer...

Eles são transcendentais, únicos! Contrastam maravilhosamente com a plumagem castanho-avermelhada e combinam incrivelmente com um azul metálico que caprichosamente iridesce em suas asas. Perdoem-me pelo excesso de "mentes", mas o bicho é excepcionalmente fantástico!!!

Ah, aqueles olhos... tocam fundo a quem os contempla, num misto de maravilhamento e temor perante o iminente perigo de extinção que os ronda.

Acreditava-se até que pudessem não mais existir! O último registro documentado foi há 75 anos! Um espécime coletado que, sem vida, perde seu maior encanto.


                                                                            ...


Passadas poucas e intermináveis semanas lá fomos nós, nesta que foi a expedição mais importante da minha vida, rumo ao mais longínquo Espinhaço, à procura de outras de sua espécie.

Foram mais de 1300 km voando(no meu caso), 2350 km de carro(o Wagner ainda mais, 3200 km) e exatos 56,3 km a pé!

A despeito de conhecermos seu micro-habitat e sua vocalização (excelentemente gravada pelo Wagner), apesar de todo nosso esforço e dos fortes indícios (relato de avistamento por ornitólogos que trabalharam nessa região e mesmo micro-habitat)... infelizmente não obtivemos sucesso (quando estávamos de partida ficamos sabendo que um incêndio devastara toda a região uns dois anos antes).

Mas o que importa, de fato, é que a descoberta do iluminado ornitólogo Rafael Bessa dá um novo ânimo à comunidade e uma nova esperança à espécie.

Com as excelentes gravações e a descoberta das especificidades de seu habitat, a esperança é que outras de sua espécie possam ser encontradas na imensidão do Espinhaço.

Minha esperança é que a (ex) provavelmente extinta rolinha-do-planalto(Columbina cyanopis) possa ressurgir como a rolinha-do-espinhaço, e, assim, mais motivos para se apaixonar as futuras gerações terão.

Columbina cyanopis reencontrada em Botumirim/MG, Espinhaço Central

O namoro das Columbinas
O display 



Mais de dois anos depois...


Novamente juntos numa expedição, eu e o Wagner viajávamos em busca do bacurau-do-são-francisco (conforme já relatado aqui no blog). Além de ser minha milésima espécie, ajudaria os irmãos Mello em seu novo "Guia de Aves do Sudeste", já que desconhecíamos uma foto que bem descrevesse a espécie.

Qual foi minha alegria quando o Wagner topou minha sugestão de voltarmos àquele lugar fantástico!!! Afinal nossa primeira parada ficava relativamente perto do paraíso que abrigava as últimas Columbina cyanopis conhecidas (apesar de mais de dois anos de buscas promovidas pelas instituições envolvidas na preservação da espécie, nenhuma outra foi encontrada).

A saudade daquela joia encrustada naquela paisagem paradisíaca era sem tamanho.

Dessa vez iria aproveitar para fazer umas fotos (mesmo que de celular) do maravilhoso campo rupestre onde elas sobrevivem. Da primeira vez que lá fui, estava tão embasbacado com aquele momento sem precedentes na minha vida que sequer fiz uma foto de recordação, meu foco era tentar registrar da melhor maneira possível a beleza singular daquela que era uma das espécies mais raras do mundo.





Foto: Wagner Nogueira


A época não estava boa para playback (ao que tudo indica elas só respondem durante a época da seca), mas foi o Wagner adentrar um pouco o campo rupestre e sua estrela logo brilhou, topando com um dos doze exemplares que ainda restam.

Por mais alguns inolvidáveis minutos pude desfrutar da presença daquela joia mineira, apreciando toda a beleza e a paz que a caracterizam.

Ficamos ali, ora fotografando, ora contemplando aquela criaturinha, tão bela quanto ingênua, tão tranquila quanto ameaçada.

VIDA LONGA À COLUMBINA!



sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Grande sertão: Cavernas do Peruaçu

Mais de duas centenas de quilômetros separavam o Peruaçu de sua capital regional, Montes Claros. E ainda tinha quase uma centena e meia pra riba, pra chegar Bahia. Eita sertão grande de meu Deus!

Muita destruição, é certo. As unidades de conservação existentes no norte de Minas são uma esperança de preservação. Ameaças são constantes, incêndios, caçadores, desmatamento ilegal. Infelizmente a maioria dos parques de lá são de papel, sem infraestrutura básica ficam à mercê dessas ameaças.

O Parque Nacional Cavernas do Peruaçu pode-se dizer que é uma feliz exceção. Só se entra no Parque com guias locais credenciados. As pinturas rupestres datadas de mais de 10 mil anos merecem cuidado extra. São talvez a principal atração do Parque, junto, é claro, das cavernas que dão nome ao mesmo.


Tirando os bichos, alguém entende esses desenhos?!





Estradas bem conservadas, acessos bem cuidados, natureza protegida, além das melhorias que já estão a caminho. O Cavernas do Peruaçu está de parabéns!

Wagner, eu e o grande Ademir, guia do Parque


As chuvas enchiam a Mata Seca de vida. O verde brotava tenro em todo canto, contrastando com o pitoresco cenário rupestre.



O belíssimo sofrê curtia a chuva
Se o sofrê fica até mais bonito molhado, não podemos dizer o mesmo do bico-virado-da-caatinga


Não era só o verde que brotava, todas formas de vida brotavam em todo canto, depois da latência provocada pela seca.

A cada passo pulavam micro-sapinhos


Enyalius pictus

Megalobulimus sp


A revoada de cupins fez a festa da bicharada

Mas com certeza outra grande potencialidade do parque, claro, é a avifauna. A Caatinga e a Mata Seca formam um belo mosaico onde podemos encontrar várias espécies conhecidas e até futuras novas espécies, como por exemplo o caso do já citado asa-de-sabre-da-mata-seca.

O ameaçado arapaçu-do-nordeste, típico habitante da Mata Seca, é uma das primeiras estrelas do Parque que encontramos.

Esse deu muito show!

O Wagner sempre me disse que o raro e belo gavião-de-penacho era relativamente comum na Mata Seca. Ouvimos mais de uma vez o grande Spizaetus ornatus e na primeira delas usamos o playback para registrá-lo.

A refeição foi boa

Então fica a dica heim?! Creio que este seja o melhor lugar para encontrar essa espécie fora das condições de um ninho. O Wagner afirmou que todas as vezes que esteve lá, viu o bicho.

Outro bicho legal que apareceu bem também foi o chupa-dente.



A quantidade incrível de lagartas deve ter atraído essa nova espécie (referência: Wikiaves) para o Parque:

Papa-lagarta-de-euler

O negócio é não chegar de bico vazio
Ouvimos vários acanelados, mas sem responder ao playback, não melhorei o registro de Montes Claros.

Outra ave que muito me chamou a atenção foi o sabiá-coleira de lá, bem diferente do da Mata Atlântica, mas não menos bonito!



Chegamos no paredão onde se localizava a maior quantidade de pinturas rupestres abertas à visitação, no final da trilha do Desenho.

Viajávamos no tempo, alheio aos habitantes atuais daquele lugar mágico, até que o Wagner me chama a atenção para um deles que estava ali na área, tranquilaço, apesar dos intrusos.

Essa foi a primeira cena que vi do mocó, não tava nem aí pra gente
Ficou nessa posição uma eternidade para um roedor arisco. Pensei, que bicho manso! Depois de algum tempo, na mesma posição, deu uma espiadinha na gente.



E com toda tranquilidade do mundo, foi até seu posto para mostrar quem era o dono do pedaço.

O rei mocó!

Fomos a um mirante muito top, para nos despedirmos da Mata Seca. De lá podíamos ver o Velho Chico e a degradação da Mata Seca de baixada que outrora protegia o rio da integração nacional. Estávamos nos limites do PARNA, e mais uma vez o Wagner me proporcionou uma condição excepcional para registrar outro arapaçu ameaçado que ocorre na Mata Seca, o arapaçu-de-wagler.



E com essa vista, nos despedimos do grande sertão mineiro com a certeza de que um dia voltaremos

Grande sertão: Montes Claros

Ave!

Essa viagem foi planejada inicialmente como comemoração do niver do meu querido tio Maninho, grande companheiro de passarinhadas em terras mineiras. Iríamos para seu lugar favorito, a serra da Canastra, mas atendendo ao seu caridoso coração, preferiu não ir, o que é digno de minha profunda admiração. Agradeço-o imensamente pelo carinho e atenção dispensados à nossa querida vovó Naná.

Nesse ínterim estava conversando com o grande amigo, meu irmão camarada, Wagner Nogueira, sobre o já dilatado tempo decorrido desde nossa última viagem. Foi então que ele sugeriu uma ida ao Parque Nacional Cavernas do Peruaçu, no extremo norte mineiro. A isca da vez foi o bacurau-do-são-francisco (Nyctiprogne vielliardi).

Com as folgas já agendadas, as passagens pra BH compradas e o estupefamento por ver somente três fotos (pouco reveladoras, diga-se de passagem) desse bicho no Wikiaves, não titubiei! Lá fomos nós em busca do críptico caprimulgídeo num dos mais longínquos sertões mineiros, região das Cavernas do Peruaçu.

Vista de um dos mirantes do Parque Nacional das Cavernas do Peruaçu

Mas antes fizemos uma escala em Montes Claros. O Wagner aproveitou para me apresentar uma futura nova espécie, que já nascerá ameaçada de extinção, o asa-de-sabre-da-mata-seca (Campylopterus calcirupicola). Ele conhece um ponto infalível dessa raríssima espécie no Parque Estadual da Lapa Grande.



Enquanto fotografava o raro beija-flor, pintou um lifer muito festejado! E ainda daquele jeito que é o melhor do mundo, inesperadamente.

Papa-lagarta-acanelado, primeiro Coccyzus observado por este que vos fala

Outro bicho bacana que pintou nessa breve visita a Montes Claros foi o tico-tico-do-são-francisco.

Brenha é o que não falta na Mata Seca, e o ilustre Arremon não saiu dela

Bem amigos, viajar com o Wagner sempre é um grande aprendizado, e um dos que mais curti dessa vez foi sobre a Mata Seca, ecossistema onde passaríamos quase todo nosso tempo.

Lembro-me das aulas da minha matéria favorita sobre uma floresta que perdia todas as folhas na época da seca, a Floresta Estacional Decidual (não me lembro de ter aprendido sobre a denominação "Mata Seca" naquela época). Mas só agora pude aprofundar um pouco meus conhecimentos sobre essa floresta incrível, muito ameaçada, alijada pelo poder público e praticamente desconhecida do nosso povo.

Até aquele momento só sabia que tal Floresta perdia completamente suas folhas durante a estação seca, e com o retorno das chuvas, na primavera, o verde brotava novamente, reiniciando o ciclo.

Os mapas que estudei no colégio não diferenciavam a Mata Seca do Cerrado, inserindo a primeira nos domínios do segundo.

Ledo engano, a Mata Seca, como pude presenciar in loco, está muito mais para a Mata Atlântica do que para o Cerrado. Aves como surucuá-variado, chupa-dente, gavião-de-penacho, nos remetem ao bioma atlântico. Árvores como jequitibá e jatobá, idem. E conhecendo tal Floresta na primavera, realmente não resta dúvida, aquela mata não tem nada a ver com o Cerrado.

Foto: Wagner Nogueira


Infelizmente, nas centenas de quilômetros que rodamos no seu domínio, alguns poucos fragmentos secundários, e até mesmo nas áreas de preservação, num passado não muito remoto, houve muito corte seletivo, mas ainda podemos encontrar alguns imponentes e centenários jequitibás.

Outro aprendizado que muito me surpreendeu foi sobre o tipo de solo que se desenvolve a Mata Seca, aliás, para minha completa surpresa, o solo é que define o ecossistema! O Cerrado, por exemplo, só se desenvolve sobre solo ácido, já a Mata Seca se desenvolve sobre solo calcário, básico, geralmente  sobre afloramentos calcários.

Floresta Estacional Decídua do PARNA Cavernas do Peruaçu

Sobre afloramento calcário
Outro dado muito interessante: as raízes das árvores da Mata Seca são superficiais, já as raízes das árvores do Cerrado são profundas, chegando a alcançar os lençóis freáticos, por isso também nunca perdem suas folhas, mesmo durante a mais rigorosa estiagem, ao contrário das árvores da Mata Seca, que perdem todas suas folhas. A floresta então se torna alva, devido à cor dos troncos nus, o que deu origem ao nome da capital do norte de Minas, Montes Claros.

Deixamos os montes já verdes da Lapa Grande e partimos para nosso destino final, Itacarambi, terra do Peruaçu e de muitos bichos legais!

terça-feira, 21 de novembro de 2017

Reflexão milenar

Mil aves, amigos!

Oito anos (que parecem mil!) tentando registrar o maior número possível de espécies, foi realmente mil!

Mil maneiras de ser feliz, costuma-se dizer. No meu caso literalmente. Com o bacurau-do-são-francisco, uma das espécies mais difíceis de fotografar (há somente três fotos no Wikiaves, nenhuma reveladora, segue o link da página do bicho http://www.wikiaves.com.br/bacurau-do-sao-francisco), fecho esse ciclo que muito provavelmente não se repetirá (simplesmente porque as espécies brasileiras se contam na casa de um milhar).

Atravessando o Velho Chico com o irmão Wagner Nogueira para tentar registrar Nyctiprogne vielliardi
Registro realizado graças à expertise do grande Wagner Nogueira


Os felizardos iniciados na arte de passarinhar entendem muito bem o que quero dizer. Desbravar esse imenso e ainda rico país atrás de novas espécies realmente aflora sentimentos inenarráveis, pelo menos pra mim, afeito mais à prosa que ao verso. Mas felicidade seria uma boa e simples definição, a resumir o misto de emoções que parece nos antever o paraíso.

E quantos paraísos nosso país ainda possui...














"Ave amigos", título sugerido pela doce Clarinha, veio muito bem a calhar mesmo, pois como todas as grandes realizações humanas são feitas através do necessário concurso de pessoas que amam o que fazem, deixo aqui também a minha enorme gratidão a todos os amigos, guias e passarinheiros, que me ajudaram nessa escalada. E, claro, à minha família que sempre suportou minha ausência.


Não tenho fotos de todos, mas tenho gratidão, ave amigos!

Quis o destino que minha milésima espécie fosse registrada na minha terra, nas minhas Gerais, e ainda com "o cara", um dos maiores ornitólogos do Brasil, meu irmão Wagner Nogueira. E realmente foi coisa do destino, porque recentemente viajei com o amigo Clezio Kleske ao estado de São Paulo faltando só seis espécies para as mil, nada difícil pois ainda tenho uma boa quantidade de lifers praquelas bandas, mas o foco dessa viagem foi qualitativo e acabei voltando com 999 espécies! (confesso que quando resolvi fazer essa viagem acreditava que a milésima espécie seria o tauató-pintado)

É isso caros amigos leitores, acho que todos que chegaram até aqui são unânimes em descobrir que essa atividade transcende, e muito, a simples caçada de lifers.

Na busca por novas espécies, acabamos conhecendo as diversas culturas do incrível povo brasileiro, as diversas riquezas de nosso incrível país e lamentavelmente vemos o quão poderíamos estar melhores caso nossos governantes não fossem incrivelmente gananciosos.

Bem, mas esse blog não é sobre política, é sobre natureza, então me perdoem o desabafo!

Voltando ao nosso sofrido e querido país, não tem como não se apaixonar por ele. Seu povo simples e acolhedor, sua comida boa, sua natureza exuberante! Continuarei a fascinante caçada aos lifers, assim tudo começou, mas agora quase como pretexto para continuar conhecendo e desfrutando das dádivas recebidas por essa abençoada "terra brasilis".