terça-feira, 21 de novembro de 2017

Reflexão milenar

Mil aves, amigos!

Oito anos (que parecem mil!) tentando registrar o maior número possível de espécies, foi realmente mil!

Mil maneiras de ser feliz, costuma-se dizer. No meu caso literalmente. Com o bacurau-do-são-francisco, uma das espécies mais difíceis de fotografar (há somente três fotos no Wikiaves, nenhuma reveladora, segue o link da página do bicho http://www.wikiaves.com.br/bacurau-do-sao-francisco), fecho esse ciclo que muito provavelmente não se repetirá (simplesmente porque as espécies brasileiras se contam na casa de um milhar).

Atravessando o Velho Chico com o irmão Wagner Nogueira para tentar registrar Nyctiprogne vielliardi
Registro realizado graças à expertise do grande Wagner Nogueira


Os felizardos iniciados na arte de passarinhar entendem muito bem o que quero dizer. Desbravar esse imenso e ainda rico país atrás de novas espécies realmente aflora sentimentos inenarráveis, pelo menos pra mim, afeito mais à prosa que ao verso. Mas felicidade seria uma boa e simples definição, a resumir o misto de emoções que parece nos antever o paraíso.

E quantos paraísos nosso país ainda possui...














"Ave amigos", título sugerido pela doce Clarinha, veio muito bem a calhar mesmo, pois como todas as grandes realizações humanas são feitas através do necessário concurso de pessoas que amam o que fazem, deixo aqui também a minha enorme gratidão a todos os amigos, guias e passarinheiros, que me ajudaram nessa escalada. E, claro, à minha família que sempre suportou minha ausência.


Não tenho fotos de todos, mas tenho gratidão, ave amigos!

Quis o destino que minha milésima espécie fosse registrada na minha terra, nas minhas Gerais, e ainda com "o cara", um dos maiores ornitólogos do Brasil, meu irmão Wagner Nogueira. E realmente foi coisa do destino, porque recentemente viajei com o amigo Clezio Kleske ao estado de São Paulo faltando só seis espécies para as mil, nada difícil pois ainda tenho uma boa quantidade de lifers praquelas bandas, mas o foco dessa viagem foi qualitativo e acabei voltando com 999 espécies! (confesso que quando resolvi fazer essa viagem acreditava que a milésima espécie seria o tauató-pintado)

É isso caros amigos leitores, acho que todos que chegaram até aqui são unânimes em descobrir que essa atividade transcende, e muito, a simples caçada de lifers.

Na busca por novas espécies, acabamos conhecendo as diversas culturas do incrível povo brasileiro, as diversas riquezas de nosso incrível país e lamentavelmente vemos o quão poderíamos estar melhores caso nossos governantes não fossem incrivelmente gananciosos.

Bem, mas esse blog não é sobre política, é sobre natureza, então me perdoem o desabafo!

Voltando ao nosso sofrido e querido país, não tem como não se apaixonar por ele. Seu povo simples e acolhedor, sua comida boa, sua natureza exuberante! Continuarei a fascinante caçada aos lifers, assim tudo começou, mas agora quase como pretexto para continuar conhecendo e desfrutando das dádivas recebidas por essa abençoada "terra brasilis".


sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Até tu, tauató Parte Final

Ave amigos!

Dando continuidade à história do tauató (que até o momento já teve mais de 200 visualizações, nos quatro cantos do mundo), vamos falar sobre o pré e pós tauató.

A ideia era aproveitar ao máximo o tempo disponível. Então focamos em duas espécies muito especiais. Certamente estão entre as mais belas e ameaçadas do país.

Do aeroporto partimos direto para a belíssima Ilha Comprida (devido à correria não deu tempo nem de fotografar as paisagens estonteantes do lugar), lar de uma das mais belas aves brasileiras, o alucinante guará (Eudocimus ruber), um íbis escarlate tão extraordinário que está presente em vários relatos dos primeiros europeus que aportaram por aqui.

Hans Staden, mercenário alemão que se aventurou nessas terras no século XVI, foi um dos primeiros a escrever sobre nossa natureza e deixou suas impressões sobre o guará em sua insigne obra:

 “Ha também muitos passaros singulares ali. Uma especie chamada Uwara Pirange tem seus pastos perto do mar e se aninha nas rochas, junto à terra. Tem o tamanho de uma galinha, bico comprido e pernas como as da garça, mas não tão compridas. As primeiras pennas que sáem nos filhotes são pardacentas e com ellas vôam um anno; mudam então essas pennas e todo o passaro fica tão vermelho quanto possivel, e assim persiste. As suas pennas são muitos estimadas pelos selvagens”

Acredita-se que sua área de ocorrência fosse bem maior que a atual. Além da pressão da caça, a destruição do seu habitat provavelmente ocasionou o isolamento geográfico das atuais populações, situadas praticamente em três faixas litorâneas distintas do Brasil.

Para essa primeira missão, contamos com a valiosa e indispensável ajuda do excelente guia Edson Rocha.

A estrela do Edson brilhou nesse dia! Fomos num primeiro local onde os guarás poderiam ser encontrados (eles vivem em bandos), infelizmente não estavam lá, mas mesmo assim o Edson descolou um lifer para o Clezio e uma excelente foto para mim, da saracura-matraca.

Rallus longirostris


Nesse local tivemos uma conversa não muito animadora com um barqueiro que disse que a maré estava alta o suficiente para inviabilizar nosso intento, haja vista que os guarás são mais encontrados na região aproveitando as águas rasas da maré baixa para se alimentarem. O tempo nublado com algumas nuvens carregadas também nos causava certa apreensão, mas como costumo dizer, sou amigo de São Pedro e quando a chuva vem, geralmente é pra ajudar.

Com o escasso tempo disponível, partimos então para o outro e último ponto onde poderíamos encontrá-los.

Quando estacionamos o carro o Edson relatou que quando a maré está baixa dali mesmo já poderíamos vê-los. Confesso que saí do carro um pouco desanimado, pois só vislumbrava o verde e o prateado das águas. Naquele momento o vermelho era a cor da esperança.

À medida que nos aproximávamos da beira da água, a paisagem ia se descortinando, até que o Edson avista um pequeno bando ao longe, num pequeno e aparentemente único banco de areia daquele ponto. A felicidade do encontro não foi suficiente para aplacar a frustração da grande distância.

Esse era o quadro à longa distância


Mas foi aí que a estrela do Edson brilhou! Naquele exato instante, um senhor estava prestes a retirar sua pequena embarcação de dentro d'água, mas o Edson, com toda sua notável simpatia, perguntou ao distinto senhor se ele poderia nos levar até os guarás. A melancolia se transformou em grande alegria quando o senhor prontamente se dispôs a nos ajudar!!!

Sem nenhum intuito de recompensa, nosso novo e anônimo amigo teve toda a paciência e dedicação para nos proporcionar as melhores situações possíveis para foto (quase chegamos a encalhar!). Sua verdadeira recompensa foi nossa alegria e a satisfação de fazer o bem, mostrando para aqueles estranhos viajantes as belezas de sua terra, tão bem simbolizadas pela sublimidade daquela ave.

Agradecimentos ao grande amigo Daniel Mello pelo trabalho de tratamento dessa foto



O pós tauató ficou por conta do grande Marcos Eugênio, que nos apresentou o ameaçadíssimo bicudinho-do-brejo-paulista (Formicivora paludicola), espécie que só foi descoberta em 2004, apesar de viver há poucos quilômetros do maior centro urbano da América Latina! Realmente surreal!


Bicudinho-do-brejo-paulista, na única oportunidade para fotos que ele nos proporcionou

Digno de nota também, nessa nossa breve passagem pelo vale do Paraíba paulistano, foi a visita ao Sítio do Pica-pau-amarelo, local onde Monteiro Lobato viveu e que o inspirou na criação das histórias que marcaram época. Foi uma verdadeira viagem no tempo, recomendo bastante!

É isso pessoal, despeço-me agradecendo imensamente os amigos Edson Rocha e Marcos Eugênio por nos proporcionar tantas ótimas emoções.

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Até tu, tauató

Ave amigos!!!

Nessa vida tem coisas que não podemos deixar pra depois. Costumava dizer que dois bichos me desdobrariam para ir até eles caso fosse encontrado algum ninho ativo: uiraçu e tauató-pintado, duas das aves de rapina mais raras e difíceis de se encontrar.

Quando soube que o grande Duco, excelente guia de Eldorado/SP e região, havia encontrado um ninho do tauató-pintado (Accipiter poliogaster) em Iporanga/SP, "me virei" e juntamente com o grande amigo Clezio Kleske, partimos atrás desse antigo sonho.

O Duco, diga-se de passagem, é "o cara" dos rapinantes florestais da Mata Atlântica. Além de A. poliogaster, monitora vários ninhos de S. ornatus e tyrannus, sem falar que um dos três registros extra amazônicos de M. guianensis no Wikiaves é dele.

...

Iporanga tornou-se famosa no nosso meio em 2013 quando encontraram um ninho de gavião-de-penacho naquelas condições que fazem valer a velha máxima "não deixe pra depois o que se pode fazer hoje"(o ninho nunca mais foi utilizado). O privilegiado ninho colocou Iporanga no livro dos 1000 lugares que todo birder deve conhecer antes de morrer. Mas, claro, não só por isso.

Aves raras e discretas como socó-boi-escuro, sabiá-cica, bacurau-rabo-de-seda podem ser encontradas com facilidade incomum, obviamente se atendidas certas condições (sazonalidade, tempo etc). Aves como tapaculo-pintado, famoso tinhoso das brenhas, desfilam em poleiros com CEP e tudo. Substitutos ecológicos, como o corocoxó e o sabiá-pimenta, são encontrados no mesmo lugar. Não há melhor lugar para fotografar a incrível araponga. Bem amigos, a lista de atrações ornitológicas é imensa.

Carpornis melanocephala
Psilorhamphus guttatus


E ainda temos as surpresas que um lugar com tal potencial pode propiciar. Iporanga está no maior continuum que ainda resta de Mata Atlântica. Pela extensão de boas florestas, arrisco-me a dizer que qualquer espécie nativa dali ainda pode ser encontrada na região. Exemplo recente foi o fantástico registro que o Duco fez do uiraçu (Morphnus guianensis) no Parque Estadual da Caverna do Diabo, na vizinha Eldorado.

Grandes frutificações de taquara podem revelar as últimas pararus-espelho (um dos últimos lugares onde ela foi avistada, o sensacional Parque do Zizo, está no mesmo continuum). Um atento e persistente observador pode ter a imensurável satisfação de encontrar a maior águia do mundo (um guarda-parque do PETAR já me disse que a viu duas vezes), e até mesmo espécies que não costumam ser encontradas não só na região, mas em todo Brasil extra-amazônico, podem pintar, como aconteceu conosco, durante o Big Day.

Foi exatamente no local onde ocorrem simultaneamente o sabiá-pimenta (Carpornis melanocephala) e o corocoxó (Carpornis cucullata) que um passarim diferente chamou a atenção do Clézio. Bati o olho e não tive dúvida, era alguma espécie de piuí, pequeno e valente tiranídeo migrante do hemisfério norte.



Piuí-verdadeiro (Contopus virens), espécie identificada com ajuda de experientes ornitólogos

Foi o segundo registro dessa espécie na Mata Atlântica, primeiro no Wikiaves (essa sp. migra até a Amazônia). São fatos como esse que tornam nossa atividade algo muito especial.

...

Tã tã tã tã tã tã tãããã, plantão do sensacionalista!!! Acaba de findar (?) uma boa celeuma em torno da identificação de um acipitrídeo que fotografamos a cerca de 100 metros do ninho. Trata-se do macho de tauató-pintado!(p@rrraaaaaa) Mais uma vez o grande Clezio achou o bicho e quando bati o olho pensei que fosse um Accipiter bicolor. Mas quando tratava a foto percebi a falta do ferrugem na asa (o bicho era unicolor) e comparando com outras fotos, o padrão da cauda também estava diferente. Para decifrar tal enigma consultei os maiores especialistas na área.

E não é que era o tal do tauató?!!!

Ainda bem, porque foram horas de observação do ninho, durante dois dias, e o melhor que consegui foi uma foto bem mais ou menos de meia fêmea dentro do ninho.

Digno de nota foi a observação de uma super veloz perseguição a um tucano-de-bico-verde que arriscou um voo próximo ao ninho. Só vi uma imensa e pontiaguda asa branca sumindo no meio das árvores e depois de um tempo uma flecha desaparecendo dentro do ninho. A impressão que tive foi de ter visto um grande e silencioso caça da natureza. Só deu pra sentir porque o tauató-pintado é considerado uma espécie fantasma e porque é o maior Accipiter brasileiro. Outro motivo porque me enganei quando vi o macho. Do porte de um A. bicolor, não sabia que o dimorfismo nessa espécie era tão acentuado!

Somente no meio da tarde, com a temperatura muito alta, a belíssima fêmea saiu um pouco de dentro do ninho.

Confesso que voltei pra casa um pouco decepcionado, pois achava que o filhote já teria nascido, mas a surpresa do macho, dias depois, mostrou mais uma vez quão mais legal é a observação com o upgrade da fotografia.

Um adendo: por pura coincidência estávamos em Iporanga no dia do Big Day Brasil. Nunca conseguira participar, mas dessa vez estava num hotspot! Mesmo permanecendo por horas nas imediações do ninho, nossa equipe ficou em 31º lugar no ranking nacional. Qualitativamente também a lista ficou muito boa! Com destaque para piuí-verdadeiro, tauató-pintado, gavião-de-penacho, gavião-pombo-grande, macuco, bacurau-rabo-de-seda (ouvimos pelo menos três indivíduos), bacurau-tesoura-gigante, sabiá-cica etc.

A lista completa pode ser conferida aqui: http://www.taxeus.com.br/lista/10618

No dia seguinte ainda fomos ao Parque Estadual da Caverna do Diabo, onde o Duco registrara o uiraçu. Mas a chuva prometida pela meteorologia durante todo final de semana só caiu quando lá chegamos. E caiu pra valer, "em baldes", impossibilitando nossas buscas. Quem deu as caras, melhorando a foto que tinha feito no dia anterior, foi o cais-cais, um dos 5 lifers realizados nessa viagem, o que me fez alcançar a marca das 999 aves brasileiras registradas. Agora fica a questão, qual será a milésima?!

Euphonia chalybea


Captando os sons do fim do dia e aguardando o raro bacurau-rabo-de-seda
Foi uma viagem inesquecível, com muitas surpresas boas e não tão boas assim (voo perdido, acidentes materiais), mas como sempre, com muito aprendizado e novas amizades. Agradeço imensamente ao Clezio, pela paciência extrema e ótimos papos, e Duco, pela excelência e disposição. Duco, vamos ver se aquele esquema do uiraçu sai o mais rápido possível, heim?!

Ah, e para não me estender ainda mais deixei pra falar num outro post sobre o pré e pós tauató. Só lhes adianto que teve das mais belas e das mais ameaçadas aves do Brasil.

Inté!


sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Serra Queimada pegando fogo!

Ave amigos!

A primavera chegou, e o fogo do instinto de perpetuação alvoroça nossas amigas emplumadas.

Machos - insuflados por grandes doses de testosterona - cantam, chamam, se exibem corajosamente quando confrontados por possíveis concorrentes, e, concomitantemente a esses ardentes pretendentes, também já encontramos outros alimentando a prole, assim como também já se pode ver alguns recém saídos dos ninhos em plena atividade escolar. Bem amigos, quem é do ramo sabe que a primavera é o melhor período para observação/fotografia de aves.

E quando se junta tanta atividade, com um dos biomas mais belos, num hot spot do birdwatching mundial... pronto, temos a fórmula do êxtase! Pelo menos para os sortudos iniciados nessa arte que nos une a algo muito maior que nós mesmos, nos une às nossas origens.

Serra Queimada, divisor dos municípios de Nova Friburgo e Macaé

Nos 1440 m da serra conseguimos ver Macaé e Rio das Ostras
Este que vos escreve e o amigo Clezio na serra Queimada


Primeiramente tenho que agradecer o amigo Clezio Kleske por nos apresentar esse lugar sensacional. Há um tempo atrás perguntei se ele conhecia algum local em Nova Friburgo que ocorresse a trovoada-de-bertoni (Drymophila rubricollis), lifer que já havia tentado fotografar em algumas ocasiões.

Por exigir taquarais em florestas de altitude da Mata Atlântica, a trovoada-de-bertoni torna-se uma espécie rara, soma-se a isso o fato de que vive embrenhada, e temos um belo desafio.

Mas o desafio não se resumiu em fotografá-la. Chegar ao taquaral onde o Clezio a encontrou também exigiu bastante, principalmente quando você tem que carregar um peso bruto de 120 kg, com um motor com 40 anos de uso.

Eu, o Clezio e o Brunão, grande parceiro de passarinhadas fluminenses, deixamos o carro e partimos morro acima. O começo da trilha, que contava com pouco mais de 900 metros e atravessava um trecho de Floresta Atlântica submontana não condizia com o que encontraríamos mais acima. Cheguei a comentar com os amigos que estava parado demais para o começo da primavera. Só fiz uma foto nesse trecho, de uma araponga vocalizando.



Então, após vencermos uma boa dose de altitude, o Clezio nos alerta para a mudança brusca na paisagem, acabávamos de adentrar num verdadeiro paraíso!

Floresta Atlântica montana da serra Queimada

De repente a trilha se abriu! O apertado corredor formado pelo que nós costumamos chamar de "tranqueira" converteu-se num amplo salão muito bem ornamentado, acanhadas árvores deram lugar a gigantes com seus luxuosos trajes de musgos, liquens e bromélias. E para aumentar ainda mais nosso deslumbre, parecia que todas as aves que não encontramos até então estavam ali concentradas. Pouquíssimas vezes vi tal quantidade de bichos numa mata!

A primeira a posar para fotos foi uma choquinha-de-garganta-pintada. Só mesmo assim, sem tranqueira, foi tão fácil registrá-la.

Rhopias gularis

Muitos limpa-folhas, este é o coroado

Incrível a quantidade de arapongas-do-horto também! Denunciadas pela sua fantástica vocalização, já que não é fácil encontrá-las na copa das grandes árvores do local.

Segundo registro que fiz dessa sp, o primeiro foi no Zizo há quase 7 anos

Além da araponga-do-horto, destacavam-se na paisagem sonora corocochós e saudades, mas sem dúvida alguma quem dominava eram as arapongas, com sua famosa e poderosa "martelada na bigorna".

Interessantíssimo mesmo foi um imaturo que ensaiava suas primeiras marteladas. Fui obrigado a gravar, os amigos podem conferir nesse link: http://www.wikiaves.com.br/2708077&tm=s

Araponga, para muitos a voz da Mata Atlântica

Já estávamos no período vespertino. Somente com alguns biscoitos para segurar a fome e com a necessidade de chegar ao Rio antes do meu filhote dormir (era o dia do seu aniversário), apertamos o passo apesar da quantidade incrível de bichos em atividade (notem q a atividade estava intensa mesmo no pior horário do dia).

Enfim vencemos os 1440 metros onde um baixo e delicado taquaral, com pinta de planta ornamental, monopolizava a vegetação.

Enquanto colocávamos o playback da trovoada-de-bertoni, um bicho começou a vocalizar próximo. Na brenha do taquaral vi alguma coisa, pensei que fosse a trovoada, mas qual foi nossa surpresa quando o visor da câmera nos revelou um entufado! Primeiro registro para o local, segundo ponto de ocorrência dessa interessante espécie para Nova Friburgo/RJ no Wikiaves.

Merulaxis ater

Depois de uma "conversa" meio truncada, começamos a falar a mesma língua da trovoada-de-bertoni. Sentei-me no chão e com um pouco de paciência e sorte consegui um registro. Quem conhece essa espécie sabe que não costuma facilitar, então fiquei muito satisfeito com o registro que consegui e mais uma vez agradeci aos amigos por me proporcionarem esse lifer, o de nº 995, depois de quase dois meses do último (já começava a sofrer de hipoliferdismo).

Drymophila rubricollis

Com a fome apertando, o cansaço e o tempo contra nós, começamos a descer a serra o mais rápido possível, afinal já eram duas da tarde e tínhamos 3,5 km com algumas descidas íngremes para enfrentar, isso sem contar os 150 km de estrada até o Rio.

Mas uma vocalização freou nossa descida, não tínhamos como vencer o apelo de Batara cinerea, o matracão! Ainda mais com o Clezio dizendo que ele respondia bem ao nosso chamado.

O matracão é uma das minhas aves favoritas, é o maior representante da sensacional família dos thamnophilídeos, até então só tinha conseguido um registro muito ruim. Mas dessa vez foi diferente, a profecia do Clezio se cumpriu, o bicho veio bem, pude observá-lo de perto e espantar-me ainda mais com o seu tamanho, não à toa há registros dele se alimentando de grandes cobras. Realmente muito impressionante observar aquela choca gigante vasculhando o chão da Floresta Atlântica montana.



Bem amigos, vou ficando por aqui para não me estender demais. Fica aqui a dica então, a serra Queimada tá pegando fogo!

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Balneário Praia Grande

Juntou a fome com a vontade de comer!

Meu filhote, no alto de seus 6 anos, querendo iniciar-se no camping e meu desejo de passarinhar num lugar que o amigo Gabriel Mello indicou na querida Pirenópolis, em Goiás.

O local é uma fazenda que há décadas pertence à família do simpático Nirlen, um jovem senhor que se orgulha em manter vivo o nosso sofrido Cerrado. Só isso já seria digno de nossa mais profunda admiração, mas o nosso mais novo amigo, o Seu João (um de seus apelidos que nós adotamos), não só se preocupa com a preservação do Cerrado como também fala com muita intimidade das aves que ocorrem no Balneário Praia Grande. Assim é conhecido seu atrativo. Uma área de camping com belas piscinas naturais, cercada por uma exuberante mata ciliar.

A propriedade de 77 hectares está inserida numa região ainda bem preservada do sertão goiano. O rio das Almas, desde sua nascente, não conhece qualquer tipo de dejeto humano até chegar ao Balneário. Suas águas nos convidam a algo praticamente impossível nos dias de hoje, sorvê-las deseducadamente, sem nenhum tratamento.

Sobre o rio das Almas uma gameleira de 250 anos

Apesar de estarmos no período das férias, éramos os únicos a desfrutar de toda aquela natureza. Seu João nos disse que não faz propaganda, tem um público seleto que faz o famoso e eficaz boca-a-boca. Assim consegue manter aquele pedacinho do paraíso da melhor forma, com o mínimo impacto possível.

A rusticidade e a natureza do local nos integram de tal maneira que saímos de lá com a alma lavada. Parece que a vida fica mais leve. Com certeza é um lugar onde conseguimos recarregar nossas energias.

Durante buscas ao socó-boi-escuro


Bem, falemos dos bichos. O local abriga um ninho do raro socó-boi-escuro. Apesar de não estar ativo, havia uma grande esperança em encontrar o precioso ardeídeo. Clarinha e eu fomos até a cachoeira Renascer, onde ele costuma ser encontrado, conforme relato do Seu João.

No caminho um bicho grande saiu voando da beira do rio até uma árvore! Só o percebi rapidamente em voo, a copa o encobriu. Será que era ele?! Falei com a Clarinha que tinha tudo para ser o socó, mas a breve visão que tive do shape estava mais para um rapinante.

O coração a mil, as pernas vacilantes e os olhos atentos enfim descobrem um belo gavião-pernilongo

Clarinha e a cachoeira, beleza pura...


O socó-boi-escuro ficou para uma próxima, o lifer da viagem foi mesmo um fantasma do Cerrado.

Dominando a paisagem sonora crepuscular, tive a satisfação em ouvi-lo e a frustração de não fotografá-lo, em 2013, no Pantanal. A bem da verdade, praticamente não o tentamos, a profusão de bichos não nos permitia perder tanto tempo com uma só espécie (ainda mais com tão ampla distribuição).

Apesar de pensar o contrário, não foi tão difícil registrá-lo no Balneário. Na segunda tentativa e depois de alguns minutos de playback, o bicho atravessou a estrada com relativa calma. Que sensação boa...

Jaó, uma das vozes mais marcantes do sertão

Digno de nota também foi nosso encontro com a magnífica águia-cinzenta. A segunda maior águia do Brasil está em perigo de extinção e estima-se que hajam poucas centenas em vida livre. Vive em áreas abertas do Brasil e de outros países fronteiriços. Imaginem a sorte que é então encontrar um bicho desses pousado na beira de uma estrada. Há 30 anos, sempre que estou viajando, fico atento, alimentando a esperança de ter essa sorte. E foi justamente indo para o paraíso do sr. Nirlen que ela sorriu pra mim.

Estávamos no Km 80 da BR 040, já em território goiano. A estrada era duplicada, minha esposa estava dirigindo quando vi um bichão pousado numa grande torre. Adrenalizado, fiquei de olho para ter a certeza de que era ela, para que valesse a pena arrumar um retorno. Quando vi o penacho não tive mais dúvidas, retornamos o mais rápido possível.




Com sua índole fleumática, não se importou com nossa presença. Fiquei muito feliz não só por reencontrar essa que é uma das minhas espécies favoritas, mas principalmente por apresentá-la à minha família (mesmo percebendo que eles não possuíam um pentelésimo da minha empolgação kkk).




Voltando para o Balneário Praia Grande, tenho que fazer coro com o Gabriel, é um lugar com grande potencial para o birdwatching! E também um ótimo lugar para quem deseja fazer um camping privado, mas o mais selvagem possível (era exatamente o que estava procurando para o meu filho).

Lembrando que fui com minha família (todos adoraram) e portanto as passarinhadas ficaram em segundo plano, mesmo assim rolou vários registros interessantes:

A presença constante e marcante do bico-de-brasa na área de camping é perene alegria para nós, observadores encantados com seus elegantes voos, pousos à meia altura e com sua intrigante vocalização. Foram nossos únicos vizinhos nos três dias acampados. Tanto aqui no Rio, quanto em Pirenópolis, tenho uma vizinhança nota dez!

Bico-de-brasa ou chora-chuva-preto


O canto metálico - cancã - prenuncia outra figura marcante da área de camping. As belas rapineiras dos incautos campistas chegam em bando e agem sem cerimônias.

Bastou um minuto de desatenção para as gralhas-cancãs investirem no queijo, amendoins e bananas, chegando a rasgar o invólucro do queijo e dos amendoins para pilhá-los (melhor elas que os macacos-prego, que de vez em quando aparecem no camping, mas somente atrás dos frutos das árvores que nos fornecem sombra e embelezam o lugar).

O que sobrou do queijo dei para o Faminto (um dos cães de guarda do camping) e o que sobrou das bananas coloquei sobre o telhado do local onde deixávamos alguns mantimentos, mesmo local onde as gralhas nos saquearam, na esperança delas continuarem se alimentando das frutas. Contudo, para minha surpresa, elas ignoraram as bananas e continuavam com seu intuito criminoso, mas dessa vez sem sucesso, pois já havíamos tomado as devidas precauções. Tal interação já é divertida para um marmanjo como eu, imagina para meu filhote. Com certeza esse camping será inesquecível para ele!

A face de um celerado

Outra atração do local é o fantástico udu-de-coroa-azul, que inclusive tem hora marcada. Por volta das 18 horas ele aparece no restaurante para jantar. Mesmo sendo um convidado especial, mantem sua característica discrição. O que tem de lindo, não tem de exibido.

ISO alto e superexposição para tirá-lo do seu lugar favorito, as sombras da mata

Outra estrela do Balneário (mas que não tem hora marcada e nem estava atendendo ao seu chamado) é candidato a ave mais bela do Cerrado.

Estava conversando com Seu João enquanto ele arrumava nosso chuveiro quando notou uma movimentação próxima. Sem sinal de nada, no Balneário Praia Grande nos conectamos à natureza e compartilhamos euforia. Imaginem ver um uirapuru-laranja enquanto tomamos banho!



No mesmo lugar, sobre os chuveiros, o anambé-branco-de-rabo-preto aparecia com certa frequência.



A maria-ferrugem também é figura frequente nas trilhas.



Um dos habitantes mais belos (e de personalidade forte) que encontramos com certa frequência foi o pica-pau-de-topete-vermelho. As fotos dessa viagem que mais gostei foram a dele e a da próxima espécie.



A espécie que encontrei que mais me surpreendeu foi a pomba-trocal. A única foto que tinha desse bicho fiz na Hiléia Baiana, a quilômetros de distância. Não sabia que ela ocorria no Cerrado. Parece que os bichos que vivem no Cerrado são menos ariscos que os da Mata Atlântica.

Imensa euforia em encontrar esse belo e arisco columbídeo dando mole

Vou ficando por aqui pois a lista é bem longa, mas em breve eu e o Gabriel Mello criaremos uma para que os birders interessados possam conhecer um pouco mais o que poderão encontrar. E com certeza encontrarão muitas outras! O Balneário Praia Grande esconde ainda muitos tesouros.

terça-feira, 9 de maio de 2017

Histórias do PARNA Lagoa do Peixe - o poder da Barra

Ave amigos!

Como já predizia, grandes forças da natureza modificam a paisagem do PARNA, provocando perigosas e até mesmo fatais armadilhas.

No que toca ao bicho-homem, não raramente vemos carros atolados na areia, mesmo de nativos acostumados com o lugar. Como os fortes ventos transportam a areia incessantemente, um caminho que ontem era seguro, hoje pode virar uma terrível armadilha. Pudemos testemunhar e até ajudar num caso de atolamento de uma picape de um nativo, graças à generosidade e perícia de nosso motorista de então, o Oseas.

De um dia pro outro aparecem verdadeiros quebra-molas naturais na praia sem fim que dá acesso à Barra. Tal praia funciona como estrada para jipeiros, locais e até birders, que apesar de minoria, vem transformando o PARNA num local obrigatório para observação, principalmente de espécies migratórias.

Mas naturalmente nosso foco são outros bichos, os de penas, e hoje também falaremos dos de escamas.

O maior point dos emplumados na Lagoa do Peixe é a Barra, local auspicioso onde a lagoa se encontra com o mar.

No vai e vem das águas, ditado pelas marés, flagramos uma grande quantidade de peixes, entre moribundos e mortos, numa grande poça criada com o recuo das águas que ligam a lagoa ao mar.

Perguntávamos o porquê de não haver nenhum bicho se alimentando daqueles peixes
Mas poucas horas depois carcarás já se banqueteavam


Tal situação comprovaria, mais uma vez, o que testemunhamos na véspera, ali mesmo, na Barra. Essa Lagoa só podia ser do Peixe mesmo... com tantos predadores ainda inúmeros morriam naquela triste, mas natural cena. 

No dia anterior flagramos o que talvez seja o maior frenesi alimentar que já presenciei, um grande espetáculo natural! Incontáveis biguás capturavam com extrema facilidade os peixes que deveriam disputar espaço nas águas rasas da Barra. Gaivotas sobrevoavam os biguás rapinando-lhes o pescado. Algumas pescavam por conta própria, para tanto bastavam mergulhar seus bicos, em pleno voo, e pinçar os que estavam sob a flor d’água, mas eram a exceção, a maioria preferia furtar os biguás que, devido à abundância de peixes, ignoravam as gaivotas e continuavam o fácil banquete.

De dentro do carro mesmo fiz alguns registros, mas a cena era tão espetacular (e pedia uma distância focal menor para captar melhor a grandiosidade daquela visão) que preferi somente observar, embasbacado.


A lente fixa de grande distância focal às vezes nos engessa


Biguás em revoada
No dia seguinte ao frenesi a concentração de biguás era surpreendente

A abundância (tanto de aves, quanto de azul) da Barra da Lagoa do Peixe proporciona belas imagens: 






A Barra talvez seja o melhor lugar para observar flamingos-chilenos no Brasil

Os belíssimos flamingos-chilenos são atração à parte


Pescadores nativos, que já viviam ali antes da criação do PARNA, ainda podem se beneficiar de sua abundância

Rynchops niger



Bem amigos, é isso, a Barra é tudo isso e muito mais! Espero que esse breve relato sirva de convite para quem ainda não teve o prazer de vivenciar este lugar fantástico.