sábado, 16 de julho de 2016

Caça-fantasmas

Nas nossas florestas há seres invisíveis que só se denunciam por seus cantos mágicos. Tais seres são como fantasmas. Assombram-nos pela dificuldade em registrá-los. Povoam nossos melhores sonhos com aparições ideais. Mas não há nada que façamos que os materialize como sonhamos, geralmente só ouvimos seus pios ecoando nas nossas melhores matas, no máximo conseguimos uma observação de relance em que mal entendemos o que estamos vendo.

A evolução os levou a este modo de vida. Embora possuam a incrível capacidade de voar, preferem o chão escuro das florestas, onde astutos predadores de toda sorte: de pelos, penas e sangue frio, se especializaram em caçá-los. Eles se escondem de tudo que possua visão binocular, aquela típica dos predadores. E nós fazemos parte desse grupo.

Só há uma forma garantida de conseguirmos boas chances de fotografá-los: quebrando essa relação presa/predador. E isto demanda conhecimento, tempo, paciência, trabalho e respeito. Além de florestas preservadas, pois tais espécies são exigentes, ecologicamente falando.

No Brasil, tais condições especiais são raras, e fomos atrás delas, eu e um grande amigo, o Professor Gabriel Mello, grande fotógrafo e coautor do primeiro guia de aves com fotos do Brasil. O Gabriel também foi à caça desses fantasmas para seu próximo livro, que com certeza superará o primeiro(que já é excelente).

Nosso primeiro destino, a fantástica Trilha dos Tucanos, destino obrigatório para birders e amantes da natureza, onde o casal Marco e Patrícia fazem um trabalho espetacular, reunindo os predicados necessários para nos revelar alguns dos "fantasmas" mais cobiçados pelos fotógrafos de natureza.

Graças aos novos amigos Marco e Patrícia, é com extrema satisfação que apresento aos senhores alguns destes espíritos da floresta:


Juriti-gemedeira


Uru

Tovacuçu, bicho dos mais invisíveis que conheço


A Trilha dos Tucanos não só nos revela fantasmas, mas também outras maravilhas de nossa fauna, na intimidade que só comedouros e bebedouros muitíssimo bem frequentados podem proporcionar:


Araçari-poca




Araçaris-banana



Tucano-de-bico-verde


Irara



Pica-pau-de-cabeça-amarela, conhecido localmente como Ana Maria Braga

Beija-flor-rubi


Tecelões

Saíra-sete-cores

Saíras, sanhaçus, tiês, catirumbavas, periquitos, tietingas, tecelões, pimentões, pica-paus, beija-flores, passarinhos aos montes. Comedouros e bebedouros disputados o dia inteiro! À noite também tem movimento, pacas costumam frequentar as cevas. Nas trilhas, antas têm hora marcada na madrugada fria e pumas já foram registrados em armadilhas fotográficas.

Havia também uma cerejeira que para nossa sorte estava florida, palco enfeitado de um verdadeiro frenesi alimentar:


Saí-azul

Topetinho-verde fêmea

Ao lado da cerejeira, este belo lifer, o sanhaçu-pardo, deu um raro mole


Mas não é tudo pessoal. Outra grande atração da Trilha é a grande quantidade de palmitos-juçara em torno da sede e dos aposentos. Os frutos desta espécie de palmeira ameaçada de extinção atraem inúmeras espécies que por sua vez são dispersoras de suas sementes. A mais famosa talvez seja a jacutinga. Bela e também muito ameaçada, não deu as caras. A maioria dos frutos que achamos ainda não estavam totalmente maduros, mas mesmo assim encontramos dois pavós que procuravam alimento nas juçaras e que nos proporcionou um dos momentos mais emocionantes da viagem.

Pavó, o maior passarinho brasileiro


Outro momento também muito legal, daqueles que só a imprevisibilidade pode nos proporcionar, foi o casal de sabiás-cica encontrado pela Patrícia bem ao lado do nosso chalé.

Saio do chalé ainda sonolento, depois de uma necessária sesta depois do almoço, quando vejo a galera com suas teles apontadas pra cima da minha cabeça. OPA! Acordei de vez!

Demorou mas achei pelo menos a fêmea antes do casal partir.

Fêmea de sabiá-cica, um dos psitacídeos mais interessantes, confunde-se facilmente com a vegetação

Teve ainda outro grande lifer, o raríssimo pica-pau-de-cara-canela que achamos muito longe, o que não possibilitou um registro a altura de sua beleza, e o anambezinho, outro que vive no alto das árvores mais altas, também não rolou boas fotos, mas encontrá-lo é sempre muito legal.

Para terminar essa viagem pela Trilha dos Tucanos, parabenizo mais uma vez e agradeço imensamente o casal Marco e Patrícia por manterem este paraíso e nos proporcionar vários momentos inesquecíveis que infelizmente não cabem em um post.

Gostaria também de deixar um grande abraço a duas famílias de passarinheiros que compartilharam com a gente momentos especiais, os Goulart de Brasília e os Bianchini de Piraju. É muito legal ver famílias inteiras unidas, curtindo a inigualável "caçada" moderna às aves. Foi um imenso prazer conhecê-los, amigos!

Com aquele gostinho de quero mais, os caça-fantasmas partiram para a próxima missão, nada pouco ambiciosa por sinal.

Paisagem da Trilha dos Tucanos


O sempre bem informado Gabriel sabia que um ser vivente das trevas havia escolhido uma árvore dentro da cidade de Taubaté para passar o dia. Com a ajuda do grande Marco Cruz, a quem agradeço imensamente a fundamental ajuda, descobrimos a tal árvore. Mas, para o nosso azar, o grande Mocho-diabo não estava lá. O Marco nos contou que desde que ele foi descoberto ali, há cerca de um mês, em outros dois dias ele também não dormira naquela árvore, o que nos deixou confiantes para o dia seguinte, quando passaríamos em Taubaté novamente rumo às nossas casas.

O Marco ainda gentilmente ficou de nos informar se o mocho-diabo estaria lá no dia seguinte e assim nos despedimos, rumo à pousada Oikos do grande Josiel Briet.

Chegamos já noite e depois de tentarmos o murucututu(isso mesmo, P. perspicillata), que o Josiel nos disse que viu e escutou há uma semana e nos deliciarmos com uma boa comidinha caseira, fomos dormir, exaustos.

Último dia de viagem e cheios de esperança, partimos para o primeiro fantasma do dia, a sanã-vermelha. Não demorou muito e pudemos ver até duas fora da intransponível vegetação em que elas vivem.

Sanã-vermelha, graças ao louvável trabalho do Josiel


Felizes partimos confiantes para o fantasma que, como o tovacuçu, é um dos mais tinhosos e também um dos que mais queria fotografar:

Pinto-do-mato, deu mais trabalho que a sanã e proporcionou o momento mais sensacional da viagem

Bem amigos, para não me estender demais tive que omitir encontros e passagens muito legais dessa viagem, mas podem crer, cada bicho teve sua história, alguns até com lances SHAZAM!

E ainda havia o mocho-diabo! E como se não bastasse, o mocho estava lá! O Marco Cruz havia nos dado a boa notícia. Então mais do que satisfeitos, nos despedimos do Josiel, agradecidos pela oportunidade de fotografar duas de nossas aves mais difíceis. Amigos, fica a dica então! Sanã-vermelha e pinto-do-mato, com tanta facilidade, acredito que só com o grande Josiel.

Na pousada Oikos do grande Josiel Briet
Foto: Josiel Briet


Já em Taubaté, lá estava ele, um "monstro"! Acho que o mocho-diabo só perde em tamanho pro jacurutu, a maior coruja das Américas. Que bicho bruto! E louco! Assim termino esse post, com a imagem dele, "el mocho diablo", que junto com o pinto-do-mato, fechou com chave de ouro essa viagem.



terça-feira, 28 de junho de 2016

Canastra, da água ao vinho

Ave!

Quando tudo parece acabado. Quando aquele sentimento de frustração nos abate. E quando menos se espera... shazam! Uma reviravolta acontece!

E quando essa reviravolta supera nossas melhores expectativas? Vamos do inferno ao céu! Incrivelmente essa foi a tônica dessa viagem que fiz à Serra da Canastra a convite do meu querido tio Maninho Camarão. Creio a mais emocionante de todas!

Tio Maninho no seu lugar favorito, a magnífica serra da Canastra

No caminho para nossa pousada, em São João Batista da Canastra, pitoresca vila onde fica o melhor acesso à parte alta do Parque Nacional da Serra da Canastra, fizemos aquela parada obrigatória na nascente do rio São Francisco. Seguindo dica de amigos, tentava o pula-pula-de-sobrancelha, que depois vim a saber que não responde nessa época.

Muito silêncio e frio atípico, como está sendo de praxe ultimamente. Só alguns Mimus saturninus que, de tão famintos, não se importaram com nossa presença, a ponto do meu tio alimentá-los na mão.

Realmente no caminho até ali pouquíssima movimentação, naturalmente as aves migratórias não se encontravam e das residentes e interessantes, só encontramos um tico-tico-de-máscara-negra.

Retornando para seguirmos viagem, eis que me deparo com um grande tamanduá-bandeira, o mamífero que mais queria encontrar nessa viagem! Nunca o havia encontrado, mesmo já visitando a Canastra outras três vezes.

O ilustre desdentado estava de costas, acabara de atravessar a estrada e seguiu beirando o recém-nascido rio São Francisco.



Tentava me antecipar para pegá-lo em uma boa posição, mas depois de uma breve e precária aparição entre a vegetação, ele sumiu e reapareceu do outro lado do rio.

Apressei o passo, retornei e dei a volta pela primeira ponte sobre o Velho Chico. Tio Maninho, que estava entretido com os Mimus, preferiu não me acompanhar, também "pra não me atrapalhar", como costuma dizer.

Segui então dessa vez pela margem direita. Passo ligeiro, até que avistei o bichão. Provavelmente já tinha me avistado e estava trotando a uma boa distância.

Neste momento me lembrei de uma foto antológica do saudoso Mestre Marigo correndo atrás de um bandeira, salvo engano naqueles mesmos campos da Canastra.

Parecia que nunca o alcançaria, mas não desisti! Continuei no seu percalço até que ele entra numa espécie de muro natural de pedras que, de onde eu estava, não conseguia ver o outro lado. Pensei, é agora q tenho alguma chance! Acelerei na esperança de surpreendê-lo do outro lado do "muro".

Já em cima da tal formação, ofegante, esforçando-me para ficar em total silêncio, deparei-me com uma bela paisagem cuja atração principal era o ainda muito jovem Velho Chico que suavemente corria entre pedras.

A vista alcançava grande distância e o espanto era enorme: onde foi parar o tamanduá?! Escaneei todo o terreno com atenção. Como um bicho daquele tamanho conseguiu sumir daquela maneira?

Enquanto recuperava o fôlego, comecei a "viajar" naquela belíssima paisagem, como que me consolando, ao mesmo tempo que perplexo pelo sumiço daquele grande animal.

Já me encontrava desanimado e me preparando psicologicamente pra desistir até que, shazam! Eis que me sai do muro, do meu lado, o grande tamanduá-bandeira!

Estava ali o tempo todo! Provavelmente achou algum alimento entre as pedras! E ainda veio em minha direção, tranquilamente, continuando sua busca por alimento! O coração acelerou, continuei imóvel, ele chegou a cerca de 3 metros!!!

As fotos seguintes estão sem crop e revelam um pouco da intimidade deste magnífico animal:


Procurando com seu olfato apurado formigas e cupins, praticamente seu único alimento


Neste momento creio que ele me detectou, pelo olfato, já que deve ser praticamente cego

Tamanduá-bandeira, com seus mais de 2 metros de comprimento, atravessando o rio São Francisco


Com o sentimento de começar com o "pé direito" a viagem, seguimos direto pra casa do Sô Vicente que nos recebeu com um delicioso jantar à beira do fogão à lenha. Depois de boas falas fomos descansar para nosso segundo e principal alvo, a ave aquática mais ameaçada de extinção do mundo, o fantástico pato-mergulhão.


Sem pausas chegamos à parte alta da Casca d'Anta. Com muita astúcia, bolei um plano infalível para conseguir fotografar o raríssimo e arredio pato. Levei um blind que praticamente estrearia nessa empreitada. Subi o rio até achar um local favorável. Com um certo esforço consegui chegar até à beira do rio, e, em meio à vegetação ciliar, achei um único local onde havia uma boa "janela" para conseguir fotografar o pato e um espaço pra montar o blind. A ideia era ficar de tocaia ali até ele passar.

Quando estava terminando de preparar o esconderijo, um casal passa em longo voo, subindo o rio. "Caraca", pensei, "não descerão tão cedo agora".

Uma, duas, três horas de espera, tomando todo cuidado para não me denunciar. Tive o cuidado até de esperar ventar pra fazer algum movimento maior dentro do blind. Havia combinado com meu tio que até uma certa hora retornaria para nosso já reservado almoço no Sô Vicente. E com muito pesar desisti. Com todo desânimo comecei a levantar acampamento. Havia até esquecido como desmontar o blind, desisti disso também.

Sem querer olho despretensiosamente para o rio, que naquele ponto parecia um lago, e shazam!!!

Há pouco mais de duzentos patos em todo mundo
Foto sem crop

Embasbacado e me sentindo um grande tolo, observei este tranquilo casal passar sem se incomodar com minha presença. Peguei a câmera bem lentamente para não correr o risco de espantá-los e fiz as fotos que pude.

Comoveu-me tanta mansidão daquela raridade. E todas aquelas histórias que ouvi de quão eram ariscos? Meu tio Maninho, que ficara no poço ao lado do estacionamento, ficou a poucos metros deles e até sem saber fotografar fez um bom registro com uma superzoom.

Depois que eles passaram, comecei a rir de mim mesmo. E no fim das contas bastava ter ficado no poço ao lado do estacionamento que provavelmente faria fotos melhores que as que eu fiz ali.

Mas este não foi o único encontro que tive com o pato-mergulhão, quando retornei ao poço que meu tio estava pude observá-lo e registrá-lo lá também, assim como no dia seguinte, na cachoeira do Fundão, considerada a mais bonita de Minas Gerais e onde soube, pelo grande amigo Alessandro Abdala, que um casal de águias-serranas estava fazendo ninho.

Display do pato-mergulhão no poço ao lado do estacionamento da parte alta da Casca d'Anta

Por um momento até duvidei das histórias que falam da dificuldade que é fotografar essa espécie, mas soube de relatos que três dias depois observadores passaram o dia inteiro neste lugar e não viram o bicho e uma semana atrás a mesma história se repetira. Alguns amigos que guiam na região também nunca o viram na cachoeira do Fundão, e lá encontrei três! Sem dúvida o fator sorte foi decisivo para que minhas melhores expectativas fossem superadas.


Famoso pela raridade e pela dificuldade em fotografar, havia planejado, nesta rápida viagem, até dois dias para o pato-mergulhão, e como no primeiro dia já estava satisfeito, concordamos em ir até a cachoeira do Fundão no dia seguinte. Aproveitaríamos para conhecê-la e, claro, tentar observar a águia-chilena fazendo seu ninho.

A estrada de acesso ao Fundão tem trechos bem íngremes e como não estávamos com um modelo traçado, seguimos o conselho do guarda-parque, em certo ponto deixamos o carro e seguimos a pé.

Um parênteses: depois que fizemos todo o percurso, cheguei à conclusão que até dava pra ir com o Duster(bão de terra!), mas ainda bem que decidimos encarar os 16 kms de subidas e descidas a pé.

Iniciamos então a descida até a cachoeira, e como de praxe, com aquele olhar viciado em procurar rapinantes.

Depois de uma grande descida, vi um tronco, muito longe, que parecia que tinha a ponta mais grossa. Desconfiei! Rapidamente peguei a câmera! O coração acelerou! Tirei uma foto:

Foto sem crop(600 mm)

Aproximando no visor da câmera, com alguma dificuldade consegui identificar, tratava-se de uma águia-cinzenta! A segunda maior águia do Brasil, espécie muito ameaçada que conta talvez com cerca de 3 centenas de exemplares na natureza, um bicho magnífico que motivou minha primeira viagem à Canastra, em janeiro de 2012, com o próprio tio Maninho Camarão, na ocasião guiados pelo excelente Alessandro Abdala, que veio a se tornar um grande amigo nosso.

Eufórico, contei o grande achado pro meu tio, que topou uma caminhada extra com o intuito de nos aproximarmos do grande rapinante.

Com o coração saindo pela boca, seguimos com esperança de conseguirmos uma boa aproximação, apesar de não haver como nos escondermos, já que a paisagem era dominada por campos limpos.

Num certo ponto a águia começou a vocalizar. Pra mim, a mais bela vocalização entre os acipitrídeos. Mas isso não era um bom sinal, nossa aproximação já a incomodava. Diminuí a velocidade das passadas, tio Maninho estancou, pra não atrapalhar. Continuei com a mesma estratégia, aproximação oblíqua e sem encarar de frente. De quando em quando parava e fotografava, até que, sem avisar, e ainda bem distante, a águia voa!

Muito entristecido continuei clicando aquele enorme predador alado voando para longe. Pensei: pôxa, voou tão cedo, que pena... podia me deixar chegar um pouco mais perto...

Mas então, SHAZAAAM!!!

Amigos, vocês podem não acreditar, porque até mesmo eu, presenciando a cena, não acreditei! Não sei o porquê, mas o bicho deu meia-volta e retornou para o mesmo local!!! E como se isso fosse pouco, alguns instantes depois outra águia chega e pousa na mesma árvore!!!

Do inferno ao céu!!!






Ainda sem acreditar naquele fato inédito, permaneci estático, numa espécie de estado catatônico. O que foi aquilo?!!! O bicho sai voando, claro que devido à minha aproximação, já que se conhece bem sua índole fleumática. E então, sem nenhuma explicação, volta para o mesmo lugar?!!! Continua vocalizando, e então chega outra águia?!!! Que que é isso?!!! INCRÍVEL!!!

Custei a me recobrar! Então cheguei mais perto, mais clicks, ainda extasiado. Uma águia voa, a outra a segue, larguei a câmera e me permiti o privilégio de somente observar aqueles dois "monstros" sobrevoando os vastos campos da Canastra, com lentas e pesadas batidas de suas longas e largas asas cinzentas, contrastando com o verde das pradarias sem fim.

Não poderia terminar de outra forma esse relato, com essa cena que sem dúvida, apesar de não registrada, ficará pra sempre em minha memória.

Bem amigos, só deixo um alerta aqui: uma boa parte deste santuário está sendo ameaçado. Querem diminuir a área do Parque, ao que tudo indica, para extrativismo mineral de áreas que hoje são um dos últimos refúgios de espécies magníficas e ameaçadas. Se isto se concretizar, será uma perda irreparável.


domingo, 26 de junho de 2016

Primeira Expedição da Ecoavis a Rio Piracicaba/MG

Ave amigos!

Tudo começou com o último encontro entre amigos que promovi na minha querida cidade. Na ocasião o Presidente da Ecoavis, Eduardo Franco, gostou tanto que me questionou sobre a possibilidade de organizar a Primeira Expedição da Ecoavis em Rio Piracicaba. Apesar da grande responsabilidade, abracei a causa e só fiz um parênteses, se poderia levar minha querida amiga Márcia Cunha de Carvalho, pois há muito tempo prometi a ela uma ida à Floresta Encantada, e ultimamente são raríssimas as oportunidades que tenho de passarinhar na minha cidade, realmente só tenho tempo quando promovo esses encontros ornitológicos.

Com o aval do Eduardo, abriram-se as vagas que em menos de 24 horas foram preenchidas, para minha total surpresa. Uma turma prá lá de bacana se formou! Novos e velhos amigos se reunindo para comungar da mesma paixão, o amor pela natureza, o contato íntimo com nossos amigos emplumados que tão bem faz à alma e a vontade de eternizá-los, através da fotografia.

Grupo top demais! Foto: Marcia Carvalho
Da esquerda pra direita: Marcio Nery, Afrânio Loures, Dora Laterza, Fabio Giordano, Marcia Carvalho, eu, Daniel Esser e Rodrigo Quadros

O frio recorde fez a diferença, nunca vi a Floresta Encantada tão quieta, os bichos pareciam que economizavam energia e pouquíssimos respondiam playback ou cantarolavam. Apesar de tudo todos saíram satisfeitos, com lifers, só a Marcia não conseguiu nenhum, mas mesmo assim foi das que ficaram mais felizes com o passeio e até deu pra fazer umas belas fotos, né amiga?

O Brejão do Morro Agudo não foi diferente, aliás, foi pior, só a borralhara-assobiadora apareceu, e, diga-se de passagem, bem diferente que da última vez que, para deleite dos fotógrafos de plantão, tinha dado um mole danado.

Alguns destaques do primeiro dia de passarinhadas na Floresta Encantada:

Trovoada 

Marianinha-amarela

Curió

Pica-pau-rei

Além destes que fotografei, dignos de menção também foram o chororó-cinzento(lifer para todos), que demandou tempo, paciência e técnica dos amigos, o arapaçu-de-bico-torto, o patinho e os formigueiros assobiador e serrano, que não deram as caras, apesar de vocalizarem bastante.

A corujada já foi um pouco melhor, com a ilustre presença da coruja-listrada, animando a noite fria. Até fiz um lifer! O lindo bacurau-ocelado, que encontrei num pau atravessado na beira da estrada e que, inocentemente, quando bati o olho, pensei tratar-se de um barbudo-rajado dormindo.

O festejado bacurau-ocelado

Ainda tentamos as corujas-orelhudas em uma mata ciliar do rio Piracicaba, mas sem sucesso. Uma pena... espero que esteja tudo bem com elas.

No dia seguinte, último, voltamos à Encantada com a grande esperança de encontrarmos o rei da Floresta, o imponente gavião-pega-macaco, já que no primeiro dia ele não havia aparecido.

Paramos no ponto onde ele já havia posado pra fotos e acionamos o playback, pouco tempo depois a euforia foi total, a resposta veio em seu inconfundível e belo pio que foi se aproximando até que não se ouviu mais nada além de uma sinfonia de clicks e interjeições de alegria.

Seguimos na esperança de que pousasse, mas em vez disso chegou outro gavião e ambos pegaram uma térmica e desapareceram.

Os reis da Floresta Encantada deram um show, só faltou o pouso

Um terceiro tyrannus apareceu, mas como os outros, partiu sem pousar.

Bem amigos, se em termos ornitológicos posso afirmar que a Expedição poderia ser melhor, em termos humanos não poderia dizer o mesmo. Com um grupo desses, passarinho é só pretexto, a diversão é garantida!

Só tenho a agradecer, a cada um de vocês meus amigos, pelo sucesso dessa Expedição! Muito obrigado por tudo! Até a próxima!!!

segunda-feira, 2 de maio de 2016

Mantiqueira das tovacas e do bacurau gigante

Ave amigos!

Mal havia desfeito as malas da Bahia pintou uma oportunidade imperdível de registrar as duas tovacas da Mata Atlântica que me faltavam.

A tovaca-de-rabo-vermelho (Chamaeza ruficauda), a "charmosa" do amigo e excelente guia Thiago Carneiro de Campos do Jordão, cidade mais alta do Brasil, cuja sede fica a 1.628 metros e que eu ainda não conhecia. E a tovaca-cantadora (Chamaeza meruloides) que o também amigo e excelente guia Hudson Martins "encantou" e que agora é a tovaca encantadora. Pensa num bicho manso...

As tovacas são daquelas espécies que a gente só consegue ouvir na floresta, às vezes ouvimos tão perto mas não conseguimos ver nada, nem sequer o mato mexendo. Por isso as considero uns fantasminhas de nossas matas. E quem não deseja ver um? Pelo menos no meu caso, quanto mais difícil a espécie, mais tenho interesse, e além do mais as tovacas são interessantíssimas, além de belas. O pouco conhecimento da biologia dessas espécies muito difíceis de visualizar também é um ingrediente que dá um tempero a mais à sua observação.

Em Campos do Jordão temos esta bela vista do vale do Paraíba 
Foto: Thiago Carneiro


Primeiro destino: Campos do Jordão, cidade muito pitoresca, cercada de araucárias e da mais bela das fitofisionomias da Mata Atlântica, a Mata Nebular, além dos belos campos de altitude em seus pontos mais altos.

A princípio o que me atraiu foi a "Charmosa", mas quando pesquisei as espécies que ocorriam no município deparei-me com o incrível bacurau-tesoura-gigante (Hydropsalis forcipata). Vi que havia vários registros no Wikiaves então também fiquei muito animado com a possibilidade de encontrar aquela extraordinária ave.

Uma boa dica para quem vai a Campos do Jordão é se hospedar no chalé do birder Rodrigo Popiel. Em meio a mata, cercado de comedouros, fui acordado por falcão-caburé (há pelo menos três nas redondezas), dormi ao som da coruja-listrada e recebi a visita de um bando de tucanos-de-bico-verde (e olha que fiquei muito pouco tempo no chalé). Recomendo!!!

Foto feita da varanda do chalé

Após ser literalmente acordado pelo Micrastur, bora pro mato! O Thiago é dos meus, como ele mesmo diz, tem sangue nos olhos! Com ele não tem tempo ruim e conhece tudo na região, além de ser super profissional, também impossível não recomendar.

Foram muitos lifers e melhorei meu registro de outras aves que eu desejava, o Thiago mandou muito bem, nota mil!

Caminheiro-de-barriga-acanelada/lifer

Caneleirinho-de-chapéu-preto/meu melhor registro dessa formidável sp

Cuiú-cuiú/lifer

Fruxu/meu melhor registro da sp


João-botina-do-brejo/lifer e acredito que não consiga fazer nada melhor que isso

Teve também o catraca, outro lifer, e único que a foto deixou a desejar. Thiago me levou em vários pontos do bicho. Em uma única ocasião um catraca até colaborou mas não o tempo suficiente para eu conseguir fotografá-lo. Em compensação, este joão-botina-do-brejo (outro tinhoso), deve ser amigo do Thiago.

Então fomos à procura da "Charmosa", a tovaca-de-rabo-vermelho que definitivamente conhece o Thiago e acredito que até reconheça sua voz.

Não tardou em aparecer sorrateiramente, sem aviso prévio. Aliás, os espíritos da floresta têm esse poder, de se materializar ao seu bel prazer. Mas só pra quem merece...


Uma visão
https://www.youtube.com/watch?v=ezgwYCRfqCU

Depois do maior espetáculo, a maior "caçada", e não só da viagem, mas de mais de 6 anos caçando bicho por aí.

Disse pro Thiago que seria impossível transcrever a emoção de tentar fotografar um dos bichos mais extraordinários que já vi. De fato, só um talentoso poeta.

Aos fatos então: depois de um dia inteiro passarinhando, fomos a uma estrada onde é o melhor lugar para encontrar o bacurau-tesoura-gigante em Campos do Jordão. Mas não nesse dia.

Eu já estava exausto e o estômago ronronava. Após subir e descer a tal estrada sem sucesso, resolvemos partir para o plano B, que o Thiago sempre tem na manga.

Mais de 20 km depois, começamos a subir uma outra estrada onde os bacuraus costumam ficar empoleirados nos mourões de cerca, deixando pendente sua "tesoura gigante", o que com certeza renderia fotos muito legais.

Chegando no segundo ponto, fomos observando os mourões e nada do bicho, até que no último momento, quando o cansaço também já era gigante e minhas esperanças já estavam por um fio, vimos um ente quase fantasmagórico sobrevoando a estrada.

Essa história tá até parecendo dia das bruxas, mas a cena realmente remete:


A empolgação era tanta que não sobrou espaço para cansaço nem fome. A partir de então começou um trabalho em equipe que durou mais de hora. O Thiago manejando a lanterna e o playback, e eu tentando acertar o foco manualmente.

Eram três! Dois machos e uma fêmea que provavelmente se alimentavam de insetos atraídos por um holofote dentro de uma mansão. Eles iam e vinham, de tempos em tempos, sobrevoando a estrada onde estávamos, ora sumindo por trás da mata, ora por trás da muralha da grande casa. Tínhamos pouco campo de visão, ainda mais restrito devido ao holofote que nos cegava. Então ficávamos na esperança que eles passassem mais e mais vezes até que o tiro certeiro eternizasse aquele momento, através de uma foto focada.

Foram vários disparos e só paramos porque os bichos ficaram um bom tempo sem reaparecer. Apesar de não conseguir a foto que queria, fiquei satisfeito com o resultado.

Com certeza repetirei essa caçada e a motivação principal nem é conseguir a foto desejada.




Durante a caçada aos tesouras-gigantes, eis que uma rasga-mortalha corta os céus levando sua presa ainda viva!

Essa foi com um único disparo, mas como o voo é mais lento, tive mais chances

Voltando pra casa, uma corujinha-do-mato ainda pousa à beira da estrada. E olha que nem corujamos!



Finalizo esse meu primeiro destino na serra da Mantiqueira com mais um amigo que as aves me trouxeram. Muito obrigado por tudo, Thiago!


Parti Penedo, casa da minha queridíssima amiga Márcia Cunha de Carvalho, que apesar de fortemente resfriada, foi aquela deliciosa companhia de sempre. Uma pena só não podermos passarinhar, mas quem tem um quintal como o seu, não precisa sair de casa para tanto.

Beija-flor-tesoura

Ferro-velho X Beija-flor-tesoura
Querida Márcia, muito obrigado pela recepção carinhosa de sempre! Mês que vem a Floresta Encantada que nos aguarde!

E por fim, a tovaca encantada do Hudson! Coincidentemente o Fábio Giordano, colega ecoaviano que eu ainda não conhecia, estava sendo guiado neste dia pelo Hudson. E sabe o que aconteceu com o Fábio? A tovaca-cantadora passou debaixo da perna dele!!! E olha que ainda por cima ele estava agachado heim?!!! Dei muita risada! O bicho parece que está até domesticado de tão manso!

O Hudson está fazendo um belo trabalho na região das Agulhas Negras e está com o ouvido afiadíssimo, recomendo demais também!

Tovaca-cantadora
Deixo aqui um grande abraço em todos os amigos, antigos e novos, que revi e fiz nessa viagem.