sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

O inexplicável (?) caso do jovem Leptodon

Todos seres vivos, invariavelmente, seguem algumas leis ditadas pela natureza. Dentre as mais relevantes, destaca-se a da sobrevivência.

Entre as coisas mais fantásticas que podemos apreciar neste mundo, estão algumas formas que certas espécies desenvolveram para tal fim. Estratégias de sobrevivência que beiram o inacreditável.

Vamos falar de um disfarce incrível que algumas espécies de gaviões menores, sabe se lá como, desenvolveram para sobreviver aos seus predadores.


No mundo dos predadores, geralmente o maior preda o menor, é a lei do mais forte.

Nas nossas matas mais preservadas existe um predador alado respeitado e temido pela sua força e ferocidade, o gavião-de-penacho(Spizaetus ornatus).

Desconheço caso de predação de algum adulto desta espécie que, diga-se de passagem, admiro desde criança.

Muito veloz e dotado de poderosas garras, poucos animais da floresta são páreo para esta águia-florestal


Macacos e outros gaviões maiores(lembrando que nosso país é o campeão em diversidade de aves de rapina) costumam predar filhotes e jovens gaviões que ainda não adquiriram astúcia suficiente para sobreviverem às leis da selva.

Mas vejam como num passe de mágica(que deve ter durado milhares de anos), jovens de tauató-pintado e de gavião-de-cabeça-cinza(duas espécies de gaviões consideradas de pequeno porte) criaram plumagens que imitam sua realeza, o gavião-de-penacho.

O raríssimo tauató-pintado(Accipiter poliogaster) adulto
Foto gentilmente cedida por Willian Menq


A. poliogaster jovem mimetizando S. ornatus
 Foto gentilmente cedida por Robson Czaban




Gavião-de-cabeça-cinza(Leptodon cayanensis) adulto
Foto gentilmente cedida por Willian Menq

Jovens Leptodon mimetizando respectivamente S. melanoleucus e S. ornatus
Extraído do site Aves de Rapina do amigo Willian Menq


L. cayanensis jovem mimetizando S. ornatus com perfeição inédita(notem que há até o requinte da faixa negra que parte do bico)
Foto gentilmente cedida por Robson Czaban

É sabido que jovens de Leptodon cayanensis "imitam" não só o gavião-de-penacho, como também o gavião-pato(Spizaetus melanoleucus - outra águia-florestal), mas o indivíduo de gavião-de-cabeça-cinza acima, registrado pelo Robson, é ímpar!
Realmente incrível a perfeição do "disfarce"! Até então não se conhecia nenhum indivíduo que alcançara tal nível de semelhança com S. ornatus. 
O que me deixou particularmente embasbacado foi o penacho. O adulto não possui sequer um penachinho, tipo do carcará por exemplo, mas este jovem desenvolveu um penacho digno de sua realeza, capaz de enganar até um dos mais experientes fotógrafos de aves do Brasil, o grande Robson Czaban. Mas não é só o penacho, a plumagem também alcançou uma perfeição que chega a nos desnortear.

Que força é essa capaz de desenvolver um penacho e uma plumagem tão perfeitos?

Lembro-me das aulas de Biologia em que aprendi que as mutações ocorrem por acaso e a seleção natural faz o resto do serviço. Mas este registro parece-me escapar à teoria.

Sou leigo, só nutro uma antiga paixão pelas aves de rapina, mas fico aqui, "pensando com meus botões": não parece que há alguma forma de inteligência desconhecida que "criou" tais adaptações para que este indivíduo alcançasse maior êxito frente à impiedosa lei da selva? Ou talvez para que repensássemos sobre as forças que atuam na natureza...

Se aquele lance da mutação "por acaso" for a única explicação possível, este jovem ganhou na Mega da Virada, e seguidamente!

Quantas ocorrências poderiam ocorrer ao acaso? Benéficas e/ou maléficas? E quantas ocorreram somente em benefício desse espécime?! Todas unicamente convergindo para uma perfeita mimetização?! Amigos, não seria um convite para ampliarmos nossa visão além das teorias reinantes?

Só me resta agradecer aos amigos Willian Menq(http://www.avesderapinabrasil.com/) e Robson Czaban(http://www.wikiaves.com.br/perfil_czaban) por cederem seus registros sensacionais.