quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Águias do Espírito Santo

Ave amigos!

Em rápida pesquisa no Google achei que a águia é "símbolo universal do poder, da força, da vitória e da proteção espiritual".

Desde remota antiguidade as águias despertaram nos homens admiração. Realmente difícil ficar indiferente perante tal potência da natureza.

Como os amigos já sabem, desde muito tempo sou observador de aves de rapina, desde quando conheci a Harpia, nem sei onde, mas sei quando, por volta dos 10 anos de idade.

E foi imbuído dessa antiga paixão que, meio no sacrifício, com o coração cortado pela calorosa despedida do meu anjinho João Miguel, parti atendendo ao chamado vindo do Estado do Espírito Santo.

Tal chamado irresistível assim só podia vir dos céus! Assim também achamos definido: a águia é um animal solar, celestial.

Seguindo então nosso destino, voamos rumo à Vitória, onde os queridíssimos primos Rosana e Bruno me aguardavam. Rosana teve que retornar ao Rio, e junto ao grande companheiro de passarinhadas Brunão, fomos "à caça" das águias do Espírito Santo.



A visualização de um sonho
Série "O Reino Animal" de 1991

A notícia de que uma das mais belas águias-florestais nidificava na região serrana do Espírito Santo foi o estopim dessa viagem.

Seguimos rumo a Laranja da Terra, onde um dos raríssimos ninhos de Spizaetus melanoleucus, conhecido no Brasil como gavião-pato e localmente como gavião-espelho, encontrado pelo pesquisador de aves de rapina Romenique Raton, estava ativo.

Não poderia deixar essa oportunidade passar em branco, e, de fato, graças ao Romenique e a seus pais, que muito gentilmente nos acompanharam, pude realizar este sonho de infância, observar de perto o apacanim-branco dos nossos índios, a águia-branca-e-preta que conheci há muito, através de raríssimos textos e desenhos, pois naquela época havia muito pouca informação e praticamente não havia fotos desse bicho.


O filhotão já exercitando as asas


Se podemos afirmar que este Spizaetus é uma águia relativamente pequena, também podemos afirmar que relativamente é uma das mais poderosas



A mata muito seca propiciou este registro



Muita personalidade


Depois deste enorme privilégio, nos despedimos do Seu Valter e da Dona Teresa, os sensacionais pais do grande Romenique.


Seguimos então rumo à Afonso Claudio, ainda na região serrana, onde se localiza a pousada Cantinho dos Três Pontões, do grande Itamar Tesch, para conhecermos as famosas águias-serranas que nidificam no famoso monumento geológico que dá nome à pousada que serve a melhor comida caseira do Espírito Santo. Ufa! Como comi!

O Itamar nos recepcionou com excelência! Muito atencioso, nos deu todo suporte que precisávamos, levando-nos até o melhor local para fotografar a imponente águia-serrana, e de quebra ainda descolou um lifer, o primeiro da viagem, da janela do templo onde tesouros culinários são preparados por sua esposa.

A imponente águia-serrana, com seus quase dois metros de envergadura



Sobrevoando a vila de Arrependido

Amigos, recomendo bastante uma visita à pousada Cantinho dos Três Pontões, além da maravilhosa comida caseira, a visita aos Três Pontões, onde um casal de águias-serranas faz seu ninho, vale muito a pena, porque, além da presença das águias, o local é de grande beleza cênica, grande astral e uma paz... ficamos a manhã toda no mesmo lugar e a vontade era de ficar o dia inteiro, pelo menos.

Então deixamos a serra e partimos para a planície, onde nosso grande amigo, Justiniano Magnano, nos aguardava em um Posto Avançado da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica, título outorgado pela UNESCO à Reserva da Vale, localizada no município de Linhares.

Agradeço imensamente ao grande Itamar e à sua esposa, novos e maravilhosos amigos que a águia-serrana nos trouxe das magníficas formações do Espírito Santo.


Três pontões, ponto culminante de Afonso Claudio, morada de um casal de águias-serranas


Nosso grande amigo Justiniano já se encontrava lá quando chegamos, fazia três anos que não nos víamos. Foi com imensa satisfação que o reencontramos da mesma forma, cheio de saúde e com a mesma garra de sempre, com muita vontade em nos mostrar os tesouros alados que o maior continuum de Hileia Baiana (floresta muito assemelhada à Amazônia que ocorre no sul da Bahia e norte do Espírito Santo) ainda guarda.

Justiniano, Brunão e eu, na Hileia Baiana
Foto: Ângelo Bruno Frederico

O Justiniano confidenciou-me sua preocupação com a seca que assola o Espírito Santo, temia não conseguir achar os bichos, contou-me inclusive que provavelmente algumas espécies estavam fugindo dali, da seca. Realmente a falta de chuva castigava plantas e animais, várias grandes árvores completamente desfolhadas, alguns trechos pareciam uma legítima Mata Seca. Encontramos uma capivara perdida no meio da floresta, provavelmente à procura de algum corpo d'água, já que praticamente todos secaram na Reserva. Jacarés ainda sobrevivem nas últimas poças de lama, onde outrora jazia um grande lago.

Perante tal quadro desolador, comentei com o Justiniano que, estando os bichos calados, sumidos, poderíamos concentrar nosso único dia de esforços para tentar mais uma vez encontrar a magnífica harpia. Aliás, encontrar a harpia na região Sudeste e ainda contando com o fator surpresa, sem a previsibilidade de um ninho, é um grande e antigo sonho. Sempre que estou na Hileia Baiana, um dos últimos redutos extra-amazônicos da harpia, tenho a esperança de realizá-lo. A harpia está extremamente ameaçada de extinção fora dos domínios amazônicos.

Então seguimos rumo ao ponto onde o Justiniano encontrou recentemente (mas sem chance de foto) um casal. Afinal, para conquistarmos grandes sonhos, todo esforço é válido, e se a águia simboliza a vitória, realmente achar a mais poderosa de todas, é uma grande vitória.

A harpia, a despeito dos seus mais de um metro de comprimento e mais de dois de envergadura, é um dos animais mais difíceis de se encontrar na natureza. Primeiro porque um casal exige cerca de 10 mil hectares de mata pra sobreviver(fora da Amazônia são raríssimas as florestas desse porte), por conseguinte, sua densidade populacional é baixíssima, segundo porque seus hábitos dificultam sobremaneira sua detecção: as harpias não planam sobre a floresta, seus deslocamentos são rápidos, de copa em copa e voam sem produzir qualquer som, praticamente vocalizam só na época da reprodução, e como se tudo isso não bastasse, costumam ficar várias horas pousadas em meio às frondosas copas de grandes árvores, de tocaia, espreitando alguma incauta presa.

Bem meus amigos, numa Reserva de 23 mil hectares, que as árvores alcançam 40 metros de altura e que o sub-dossel forma uma barreira de galhos, cipós e folhas, fica fácil imaginar o quão difícil era alcançarmos algum êxito. Cheguei a comentar com o Brunão e com o Justiniano que ficaria extremamente feliz só de conseguir visualizar uma harpia naquela imensidão de mato.

Pesquisando no Wikiaves, encontramos somente cinco pessoas que postaram fotos de uma harpia naquela Reserva mas, detalhe, quatro são guias locais (o amigo Justiniano é um deles) e um pesquisador de ninhos de harpia. Outros, como o amigo e eminente ornitólogo Guilherme Serpa, já a observaram por lá, mas sem conseguir registros fotográficos.

Ao contrário do que já li há muito tempo, as harpias, pelo menos as de Linhares, parecem temer o homem, creio que devido à intensa caça de que são vítimas, principalmente em regiões mais populosas, como no Sudeste. Infelizmente de tempos em tempos temos notícia de harpias encontradas mortas a tiro. Talvez nos rincões da Amazônia, elas não sejam tão ariscas.

Já estive algumas vezes à procura da harpia na Reserva da Veracel, também integrante da Hileia Baiana, mas sem sucesso. Até mesmo na Amazônia, só a encontrei graças ao ninho de Alta Floresta/MT, sendo que já estive lá quatro vezes. Há observadores que moram na região amazônica e levam muitos anos para encontrar uma.

Então começamos as buscas. Algum tempo depois resolvo caminhar sozinho pela estrada onde paramos. No interior da Reserva praticamente não há trilhas, mas muitas estradas, o que facilita encontrar as espécies dentro da mata fechada.

Alguns metros à frente, o improvável! Aparentemente um monstro mitológico alçou voo assim que me viu! Consegui ver, de relance, no limite do alcance de minha visão, uma magnífica harpia!

Corri em direção aos amigos gritando: HARPIA, HARPIA!!! Pareciam não acreditar, não esboçaram nenhuma reação, pareciam atônitos. Continuei então: TENHO CERTEZA! É ELA PESSOAL! É ELA! É GIGANTE! É GIGANTE!!!

No primeiro e único encontro que tive com a harpia, estava pendurado há vinte metros de altura (para quem tiver interesse, segue o link do relato: http://virtude-ag.com/vg-gaviao-real-jba/). É uma perspectiva completamente diferente observá-la de onde estamos acostumados a ver os bichos, do chão da floresta. Dessa vez deu pra ter uma maior noção do seu tamanho descomunal. Nada, absolutamente nada que já vi voando em nossas matas se aproxima do seu porte.

Depois de algum tempo o silêncio continuou a reinar, com exceção de um caburé-miudinho, espécie que o Brunão queria muito fotografar e por isso resolver ir à sua caça mais adiante. Apesar do hiato, não deu nem tempo dos batimentos cardíacos voltarem ao normal, quando vi duas asas enormes se preparando para pousar numa árvore muito próxima da estrada. Sem ver o pouso, sussurro alto para o Justiniano, ELA POUSOU ALI!!! ELA POUSOU ALI!!!

Aí meus caros, perante o incrível, a tremedeira foi incontrolável! Fiquei igual barata tonta procurando uma "janela" de onde pudesse fotografá-la, o Justiniano achou primeiro que eu, foi a primeira vez nesse dia que vi o Justiniano sem sua tradicional tranquilidade. Se ele estava assim, imagina eu! O Justiniano saiu correndo pra chamar o Bruno, que por sorte ainda chegou a tempo de fotografá-la. Quanto a mim, por sorte ou pela qualidade do equipamento, consegui algumas fotos com foco, apesar do estado delirante em que me encontrava.

Haja coração!!!


E ainda estava com uma presa, um macaco-prego!


Nem sei como consegui fazer esse registro, acho que foi no instinto

É isso amigos, essa foi minha última viagem "ornitológica" do ano e não poderia ser melhor! E olha que nem falei dos outros bichos e lifers que encontramos, mas aos poucos vamos publicando as fotos, assim que tiver tempo.

Agradeço imensamente ao grande Brunão e aos novos e velhos amigos do Espírito Santo por me proporcionarem momentos tão especiais.